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sábado, 25 de julho de 2020

Alzheimer, o Cruel


Chegou assim, sorrateiro.
Um esquecimento aqui. Uma confusão ali.
Vieram dores. Um emagrecimento absurdo.
Recuperação.
Depois, vieram as reações que não entendíamos. Agressividade que não fazia parte de sua vida.
Então, o diagnóstico: Demência vascular e Alzheimer.
Não, pensamos, isso não acontece conosco. Não na nossa família.
Não sabemos como agir.
Minha mãe? De jeito nenhum. Uma mulher que nos ensinou o verdadeiro sentido do cristianismo? Doação. Amor. Perdão. Bondade. Misericórdia. E tantas outras coisas.
Não pode ser. Não sabemos como agir. Nunca pensamos que passaríamos por isso. São coisas que acontecem com os outros. Não em nossa família.
Não fomos preparados. Não estamos preparados.
E quando ela não souber mais quem é? Não souber meu nome? Me confundir com alguém? Não vou resistir. Vou morrer.
Não estou preparada. Como passar por isso?
Mas a vida não nos espera. Ela acontece.
E nem sempre é como queremos.
Chegou sorrateiro. E foi se infiltrando em tudo. Virou parte da rotina. Do dia a dia.
Ouvindo coisas absurdas. E se escondendo no banheiro. Para chorar.
E aprendendo. E resistindo. E ficando forte. E sorrindo.
Ah, se não fosse o Senhor ao nosso lado! Impossível sobreviver.
Hoje quase não me chama pelo nome.
Diz sempre que podemos esquecer tudo, menos o Senhor Jesus.
Às vezes sou a mãe dela, na maioria das vezes a irmã mais velha que dela cuidou, algumas raras vezes sou a filha.
Que me importa? Sei quem sou. Independente do nome pelo qual me chama, sei minha identidade. E independente do que ela lembra ou esqueceu, sei quem ela é. Sei sua identidade. E ela não será falsificada ou trocada. Por ninguém. Nem mesmo esse cruel Alzheimer.
E a vida segue.
Um remédio a mais. Uma tarefa acrescentada aqui, Outra ali.
Não escolhe mais a roupa. Esqueceu os cremes que sempre passou, diariamente. Agora precisa usar fralda. Demora minutos para se vestir. Muitas vezes não consegue se vestir. O banho, acompanhada.
Mãe, come. Mãe, levanta. Mãe, senta. Mãe, devagar. Mãe, se arruma. Mãe, a senhora está torta. Mãe, a senhora está caindo.
Acompanho sua descida. Procuro segurar em sua mão.
Às vezes, um degrau. Outras, vários de uma vez. E continua descendo. E eu, ajudando como posso.
Achei que não conseguiria. Não teria forças. Mas estamos descendo. Juntas. Não posso deixá-la sozinha nessa caminhada. Não quando ela sempre esteve comigo.
Muitas vezes sorrio, quando tenho vontade de chorar. E sento ao seu lado, quando tenho vontade de correr. E me vejo fazendo coisas que achava impossível até algum tempo atrás.
E a vida continua. Até quando? Não sei.
O Senhor da vida sabe. E Ele sempre é bom.
Aprendendo as lições. Uma internação após outra. UTI não me desespera mais. Nem andar de ambulância, até com a sirene ligada.
Encarando a realidade. Comprar fraldas. Protetores. E tantas coisinhas que não faziam parte do nosso universo.
Planejando o futuro. Para ser o melhor para ela. O menos dolorido.
Esperando sempre um beijo, um abraço e um sorriso.
Agora mais um degrau. O mais largo até agora.
Não sente mais fome. Ela que sempre comeu bem. E de tudo. E com preferências. Não, não quer mais comer.
E mais uma vez vai para o hospital. E continua sem querer comer. E toma soro. E coloca sonda. E arranca tudo. E não tem solução. Só uma: GTT. Nem sabia o que era isso. Bem, agora sabemos. E teremos mais coisas para aprender. E sobreviver. E viver.
Ele chegou, sorrateiro e foi ficando, fazendo parte da rotina, do dia a dia e do futuro. Com suas garras afiadas. Querendo nos envenenar. Mas nunca conseguirá apagar quem é minha mãe. Nem quem somos nós.
Todos que um dia a conheceram, sabem perfeitamente quem ela é. Sua identidade está nela, mesmo não se lembrando mais. E está em cada um de seus filhos, netos e bisnetas. Seus sobrinhos. Parentes. Amigos.
E assim será.
Até o dia em que o Mestre chamá-la para andar com Ele em Seu jardim.
Então, como Paulo ela poderá dizer: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.” – 2 Timóteo 4.7
E suas sementes ficarão plantadas em nós. Para sempre.
“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor ultrapassa os das mais finas joias.” – Provérbios 31.10.

sábado, 23 de maio de 2020

DAVI DANÇOU, EU TAMBÉM QUERO DANÇAR!









Este é um dos argumentos que mais escuto da parte daqueles que defendem a "dança litúrgica" durante os cultos públicos nas igrejas evangélicas. Se o rei Davi dançou diante da arca de Deus, quando a mesma estava sendo trazida de volta para Jerusalém, por que nós não podemos, da mesma forma, expressar nossa alegria diante de Deus em nossos cultos, com danças de caráter religioso? Afinal, a Bíblia menciona não só Davi, mas Miriã e outras pessoas que dançaram de alegria na presença do Senhor (a imagem ao lado de Davi dançando é do famoso pintor francês James Tissot). 
Não consigo me convencer com este argumento. Eu sei que existem outros, mas este, em particular, não me convence. Não é que eu seja contra a dança em si. Sinceramente, não vejo como considerar a dança como um ato pecaminoso, como parece que alguns segmentos evangélicos fazem. Se Davi dançou, e com ele outros personagens da Bíblia, isto pode não provar que devemos dançar em nossos cultos, mas no mínimo é uma evidência de que a dança em si não é pecaminosa, errada ou imprópria para o cristão. A não ser, é claro, aquelas danças sensuais, provocativas, eróticas ou, no mínimo, sugestivas, que despertem paixões e a lascívia. Nesse caso, me junto aos Pais da Igreja, como Basílio, João Crisóstomo, Agostinho, Tertuliano, entre outros, que condenaram veementemente este tipo de dança por parte parte dos cristãos.
Mas, nem toda dança é sensual. Quando eu estava estudando para meu doutorado nos Estados Unidos frequentava com minha família uma igreja presbiteriana muito firme biblicamente. Uma vez por mês os casais da igreja se encontravam no salão social num sábado a noite onde, liderados pelo pastor e sua esposa, ouviam música country, jazz, clássica, e eventualmente dançavam (cada um com seu cônjuge, veja bem!). Minha esposa Minka e eu estivemos lá umas poucas vezes. Nós mesmos não chegamos a dançar, sou meio duro nas articulações e daria um espetáculo horroroso, matando a Minka de vergonha... hehehehe. Mas foi uma experiência muito interessante, que me marcou pela alegria, naturalidade e pureza do evento. E serviu para demonstrar o que eu já pensava, que dançar em si não é pecado.
Voltemos a Davi. Por que então não consigo aceitar que o exemplo dele é definitivo como base para as danças litúrgicas, ministérios de coreografia, dança profética e grupos de danças durante os cultos?
Bem, primeiro porque não acredito que devamos fazer normas ou estabelecer princípios gerais para a vida da igreja simplesmente a partir de atos, ações, eventos, incidentes envolvendo os heróis da Bíblia. Nem tudo o que aconteceu na vida deles pode virar paradigma para os cristãos. A não ser aquelas coisas que a própria Bíblia determina. Jesus, por exemplo, recomendou que imitássemos Davi em sua atitude para com a lei cerimonial (Mat 12:3). Davi é citado como homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), que serviu a Deus em sua própria geração (Atos 13:36), no que deveria ser imitado. Sua fé o coloca na galeria dos heróis da fé em Hebreus (11:32) e serve de exemplo para nós. Ainda poderíamos mencionar seu arrependimento e contrição após ter pecado contra Deus (Salmos 32 e 51). Tais coisas são norma e regra geral para todos os cristãos. Isto não significa, todavia, que cada atitude de Davi sirva de modelo para nós.
Uma segunda dificuldade que tenho é com este tipo de interpretação, muito popular hoje entre os evangélicos, que simplesmente transpõe para nossos dias os eventos históricos narrados na Bíblia, sem levar em consideração o contexto cultural, histórico, teológico e literário dos mesmos, e os usa como base para construir ritos, práticas e regras a serem seguidos nas igrejas cristãs. Moisés bateu com a vara na rocha - lá vem a reencenação do episódio nas igrejas como símbolo da vitória. Ouvi falar que a derrubada da muralha de Jericó foi recentemente reencenada numa igreja (usando uma muralha de isopor e gelo seco) como base para se clamar a vitória para o ano de 2009. E por ai vai. A lista é enorme. No caso de Davi, não poderíamos esquecer que na cultura do Antigo Oriente as danças eram usadas como manifestação popular pelas vitórias militares obtidas, e eram geralmente lideradas pelas mulheres. Foi o caso com a dança de Miriã (Ex 15:20), a filha de Jefté (Juízes 11:34), as mulheres de Judá (1Sam 18:6) e a própria dança de Davi (2Sam 6:20). Ao que parece, o povo saia em passeata dançando em roda (sobre dança de roda, veja Juízes 21:21 e 23). Até onde sei, no Brasil não se costuma celebrar as vitórias com danças de roda. As danças têm outra conotação e servem a outros propósitos, nem sempre moralmente neutros.
Tudo bem, vá lá. Vamos supor, por um momento, que a dança de Davi sirva de base para nós, cristãos. O que o evento lúdico do rei de Israel poderia nos autorizar? Com certeza, não autoriza que dancemos nos cultos públicos de nossas igrejas, pois a dança de Davi foi numa passeata religiosa, nas ruas de Jerusalém, algo espontâneo e do momento. Ele não marcou um culto no templo de Jerusalém, que era o local determinado por Deus para os cultos a Ele, onde foi dançar de alegria perante o Senhor. Até onde eu sei, nos cultos determinados por Deus no Antigo Testamento não havia dança alguma. Deus não determinou a dança como elemento de culto, não há qualquer registro de que as mesmas fizessem parte do culto que lhe era oferecido no templo. E acho que os apóstolos e primeiros cristãos entenderam desta forma, pois não há danças nos cultos do Novo Testamento.
Se formos usar o exemplo de Davi como base, chegaremos à conclusão que a dança dele também não autoriza a criação de grupos de dança litúrgica nas igrejas, que se apresentam regularmente nos cultos. Não justifica nem a criação dos ministérios de dança e a descoberta do dom espiritual da dança litúrgica e profética. A dança de Davi foi um evento isolado e individual. Não foi feita por um grupo que treinava e ensaiava para se apresentar regularmente nos cultos do templo. Aliás, não encontro no Antigo Testamento qualquer indicação de que havia em Jerusalém um grupo de levitas que se dedicavam ao ministério da dança litúrgica e que se apresentavam regularmente durante os cultos no templo de Deus. E deve ser por isto que também não encontramos estes grupos no Novo Testamento. Acho que o rei de Israel cairia de costas se ele visse tudo o que se inventou hoje no culto a Deus com base naquele dia em que ele saltou de alegria diante da arca do Senhor.
Por último, acho que este tipo de argumento, "Davi dançou, eu também quero dançar", deixa de lado alguns princípios importantes sobre o culto que devemos prestar a Deus. Primeiro, que embora toda nossa vida seja um culto a Deus (veja 1Cor 10:31), Ele mesmo determinou que seu povo se reunisse regularmente para cultuá-lo, cantar louvores a seu Nome, buscá-lo publicamente em oração e ouvir Sua Palavra. Uma coisa não exclui a outra, mas não devem ser confundidas. Nem tudo que cabe na minha vida diária como culto a Deus caberia no culto público e solene. Por exemplo, posso plantar bananeira para a glória de Deus, mas não vejo como justificar isto no culto público regular das igrejas. Cabia perfeitamente a Davi dançar de alegria naquele dia, na procissão de vitória, nas ruas de Jerusalém. Todavia, não o vemos fazendo isto no templo de Jerusalém, durante os cultos estabelecidos por Deus. 
Segundo, não podemos inventar maneiras de cultuar a Deus além daquelas que Ele nos revelou em Sua Palavra. Os elementos que compõem o culto a Deus, até onde eu entendo a Bíblia, são a oração, o cantar louvores, a ação de graças, a leitura e pregação da Palavra, as contribuições voluntárias de seu povo, o batismo e a Ceia (quando houver). É claro que a Bíblia não estabelece ritmos musicais, não nos dá orações fixas e nem mesmo uma ordem litúrgica a ser seguida. Mas, ela nos dá os princípios e os elementos do culto que Deus aceita. A questão, portanto, não é se Davi e outros heróis da fé dançaram, mas sim se as danças litúrgicas fazem parte daquele culto que Deus determinou em Sua Palavra. E mesmo que eu não tenha nada contra o dançar em si, não vejo como as danças possam ser enquadradas como elementos de culto.
Enfim. Ao ler a história da dança de Davi o que aprendo é o amor que ele tinha ao Senhor, e a alegria que o dominava pelas coisas de Deus. Aprendo que devo amar ao Senhor e me alegrar com as coisas dele à semelhança de Davi. Todavia, não creio que a maneira com que Davi expressou estes sentimentos seja elemento de culto para os cristãos. O texto está muito longe de requerer isto. Sei que vou escandalizar muita gente ao dizer que eu não veria problemas com grupos de coreografia para evangelizar ou mesmo para participar em reuniões sociais dos jovens e adolescentes de nossas igrejas (sobre boate evangélica, falaremos em outra oportunidade). Mas o culto público a Deus, quer nos templos, quer em qualquer outro lugar, é regido pela regra: "só devemos adorar publicamente a Deus com aqueles elementos de culto que encontramos na Bíblia". 
Termino lembrando que neste post estou interessado apenas no uso do episódio da dança de Davi como base para as danças litúrgicas. Há vários outros argumentos usados para defender esta prática, cada vez mais comuns nas igrejas evangélicas (como por exemplo o Salmo 150), que não receberam atenção aqui, mas que podem ser alvo de uma futura postagem sobre o assunto.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Não fale com pressa, aflição ou raiva.



Gritaria Irritada Da Jovem Mulher Gritar Louco Irritado Da Mulher ...

Um antigo provérbio afirma que “Deus fez o homem com dois ouvidos e apenas uma boca, porque ele deve ouvir mais e falar menos”.

A verdade é que falamos muito.
Falamos o que não devíamos falar, quando não deveríamos falar e a quem não deveríamos falar. Falamos coisas que não edificam, palavras que não abençoam, fazemos críticas que destroem e empregamos palavras descaridosas. Nem sempre falamos a verdade sobre os outros, mas mesmo que falemos a verdade, deveríamos ou precisávamos falar?

Por isto a Bíblia dá, três grandes recomendações sobre a linguagem.

Primeiro, não fale apressadamente.
No Salmo 31.22 lemos: “Então disse na minha pressa: extou excluído da tua presença”. A pressa é inimiga da perfeição, e falar apressadamente nos compromete e leva-nos a dizer as coisas irrefletidamente, sem medir as palavras, sem ponderar. Quando estiver sob pressão para responder rápido, mesmo assim, peça um tempo para refletir, orar, diga que sua opinião ainda não está claramente formada, mas não fale sem pensar.
A Bíblia diz que “peca quem é precipitado”. A precipitação, o ímpeto, a pressa podem nos levar a dar respostas equivocadas, comprometedoras e infundadas, e a nos equivocarmos profundamente sobre o assunto.

Segundo, não fale na aflição.
O coração aflito, desesperado, deprimido, fala muita coisa tola.
No Salmo 77.10 o salmista diz uma série de impropérios contra Deus, questiona o cuidado de Deus, relativiza as promessas de Deus, para depois reconhecer: “Então, disse eu: Isto é a minha aflição”.
Na hora da aflição e da angústia fazemos leituras pessimistas e nos tornamos inquisitoriais, até mesmo contra Deus. Por isto, feche a boca, cale-se quando o coração estiver aflito e a dor estiver batendo à porta. Quando estamos assim, sempre fazemos leituras distorcidas dos fatos.

Não fale com raiva
A Bíblia diz: “Longe de vós toda ira, cólera, gritaria”. Quando estamos zangados ou irritados, fazemos declarações que causam profundas feridas. Casais perdem o respeito e a sensibilidade quando gritam, agem com altercação e ira.
Com raiva falamos sem pensar, vociferamos, perdemos a razão e o bom senso. A ira é má conselheira, e quando estamos com raiva somos propensos a revelar um coração néscio, arrogante e ferino. Por isto, não fale com raiva.

Espere a poeira baixar, diminua o volume da voz, considere se o que está dizendo é justo, não faça julgamentos, e mesmo que o que você estiver dizendo for justo, reflita se vale a pena dizer. “A língua serena é arvore de vida, mas a perversa quebranta o espirito” (Pv 14.4). Portanto, não fale com raiva!

A Bíblia faz muitas considerações importantes sobre a língua, mas para concluir, queria cita mais um provérbio: “como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a boa palavra dita a seu tempo” (Pv 25.11). Não é esta uma belíssima imagem?

Não fale com pressa!
Não fale na aflição!
Não fale com raiva!

Rev Samuel Vieira.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

QUASE: Uma Exposição do Salmo 73






Asafe foi um dos principais cantores de Israel. É muito provável que ele tenha até mesmo fundado uma escola particular de composição de salmos. Sua idade devia oscilar entre os 60 e os 70 anos quando escreveu o Salmo 73 e, por isso, as expe­riências que ele narra nessa texto, em linguagem teológica filosófica e poética, se revestem de pro­funda significação; elas são a aglutinação de uma profunda experiência humana como a irretorquível inspiração do Espírito Santo retratando os fatos da alma.

"Com efeito Deus é bom para com Israel, para com os de coração limpo. Quanto a mim, po­rém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos. Para eles não há preocupações, o seu corpo é sadio e nédio. Não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens. Daí a soberba que os cinge co­mo um colar, e a violência que os envolve como manto. Os olhos saltam-lhes da gordura; do co­ração brotam-lhes fantasias. Motejam e falam maliciosamente; da opressão falam com altivez. Contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra. Por isso o seu povo se volta para eles, e os tem por fonte de que bebe a lar­gos sorvos. E diz: Como sabe Deus? Acaso há conhecimento no Altíssimo? Eis que são estes os ímpios; e sempre tranqüilos aumentam suas riquezas.

Com efeito, inutilmente conservei puro o cora­ção e lavei as mãos na inocência. Pois de con­tínuo sou afligido, e cada manhã castigado. Se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos.

Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim; até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles. Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados totalmente aniquilados de terror] Como ao sonho, quando se acorda, as­sim, ó Senhor, ao despertares, desprezarás a ima­gem deles.

Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ig­norante; era como um irracional à tua presen­ça. Todavia, estou sempre contigo, tu me se­guras pela minha mão direita. Tu me guias com o teu conselho, e depois me recebes na glória.

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraz a na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfalecem. Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo.

Quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Se­nhor Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos.

Imagine-se com 60 anos e, de repente, perdendo a fé. Se, um dia, você, depois de séria e profunda reflexão, chegasse à conclusão de que toda a sua vida até àquele momento poderia nada mais ter si­do do que um terrível desperdício. Pois bem, foi exatamente assim que Asafe se sentiu. Durante toda a sua vida ele crera na bondade de Deus para com o seu povo, e especialmente, para com os homens de coração puro: "Com efeito, Deus é bom para com Israel, para com os de coração limpo," (v.1).

Subitamente, ele começa a colocar em dúvida essa bon­dade de Deus. Apesar de ter crido na justiça e mise­ricórdia do Senhor durante toda a existência, hou­ve um dia no qual pressentiu estar pisando o limiar da apostasia. "Quanto a mim, porém, quase me res­valaram os pés" (v.2).

Asafe percebeu que seus pensamentos o estavam guiando a um caminho escorregadio. Na realidade, ele descobriu que faltou muito pouco para que abandonasse a fé. A lição que daí obtemos é a de que os homens mais firmes e ortodoxos desse mun­do podem passar por terríveis momentos de con­flito filosófico e teológico. Por inferência, o salmista nos ensina ainda mais duas coisas: a primeira delas é não nos desesperarmos quando, porventura, virmo-nos assolados por esse tipo de sentimento em relação à justiça e à bondade de Deus no mundo presente. A outra é que devemos ser mais amorosos e compreensivos com aqueles que, ao nosso lado, encontram-se na dúvida.

No verso 3, Asafe nos dá a razão da sua "quase queda": "Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos."

Sempre que um crente começa a cobiçar o estilo de vida nababesco de homens sem absolutos morais e espirituais, ele acaba na mesma situação conflituosa de Asafe e a pergunta que, normalmente, de­sencadeia tal processo de perturbação filosófica é a seguinte: Por que aquele homem prospera apesar da sua maldade? ou: Por que Deus não distribui as coi­sas equanimente manifestando assim a sua jus­tiça no tempo presente?

Vejamos quais os elementos específicos que mo­tivaram tal perturbação em Asafe. Um deles é o perfeito estado de saúde dos homens maus. "Para eles não há preocupações, seu corpo é sadio e nédio" (v.4). Se fosse no século XX, as questões de Asafe provavelmente se desenvolveriam da seguinte maneira: "Por que alguns conhecidos play-boys go­zam de perfeita saúde durante toda a vida ao passo que muitos homens de Deus estão morrendo de câncer no auge do ministério sagrado?" Foi exata­mente isto que a junta médica de um certo hospital colocou diante da família de um amigo meu que estava naquele lugar com câncer. Eles queriam sa­ber que "Deus-Bom" era esse que deixava um servo Seu morrer daquele jeito. Pois bem, essa questão também atordoava a mente de Asafe.

Por outro lado, o salmista concluiu que os maus ganhavam a vida apenas na base do emprego sem necessidade real de trabalho: "Não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens" (v.5). A mesma pergunta poderia ser colocada a partir de várias situações diferentes. Talvez alguém dentro de um ônibus superlotado que vê o magnata explorador passar no seu "mercedão". É o proletário crente que tem de ir para o trabalho no sufoco de um trem da Central do Brasil, ou ainda um operário do ABC paulista, ou em qualquer outro lugar onde haja homens de Deus que não usam black-tie. Diante do confronto, surge a possibilidade de se levantara questão.

Asafe se atordoou ainda com a constatação de que a vida dos perversos é normalmente um suces­so. Não têm duplicatas vencidas, nem filhos com fome. Nenhum aperto financeiro lhes impossibili­ta a gozo das férias: "Não são afligidos como os outros homens" (v.5b). Aliás, além de serem eco­nomicamente tranqüilos, eles nem mesmo precisam lutar para ganhar dinheiro pois "sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas" (v.12).

Esta comparação levou o velho Asafe a discernir algumas conseqüências deformadoras do caráter que essas facilidades provocam no espírito dos ho­mens distantes de Deus. Não foi difícil verificar a sua soberba: "Daí a soberba que os cinge como um colar" (v.6a). Aí está uma redundância: a vaidade de ser soberbo ou a soberba de ser soberbo. É sempre assim. A soberba gera soberba. Por isso, Asafe concluiu que os homens sem Deus exi­bem a sua soberba "como um colar". Quando o homem não tem o temor de Deus no coração, dá status ser soberbo e falar de grandes realizações com a boca cheia de arrogância. Somente quando o temor de Deus está no coração é que a soberba não é o sentimento natural de uma pessoa "bem-sucedida."

Outra característica que observamos nos homens maus e, ao mesmo tempo prósperos, é a violência: "A violência os envolve como manto (v.6b). Esta­mos outra vez diante de um processo: a violência. É por isso que o primeiro passo agressivo tende a ser acompanhado por uma interminável seqüência. 0 violento se veste de violência, ou seja, a violência é o seu "manto", a sua proteção.

A glutonaria também faz parte do caráter de tais pessoas. "Os olhos saltam-lhes da gordura" (v.7). O texto, evidentemente, não está dizendo que uma pessoa gorda não é de Deus mas faz uma associação entre os ideais dos maus e a comida. Tudo quanto são e planejam começa ou, pelo me­nos, acaba numa mesa farta. Nesses encontros, a comida, além de ser assunto das conversas, ocupa boa parte do tempo. Seu modelo de vida sempre vai do prato à boca. Sua filosofia não passa de "comamos e bebemos porque amanhã morrere­mos."

Mas há ainda uma quarta característica que poderíamos chamar de fantasia. "Do coração brotam-lhes fantasias" (v.7b) Esses homens sem Deus, nor­malmente, têm tudo quanto desejam e, por isso in­ventam novas formas de pecar. São os ricos distan­tes de Deus que criam as "novas fantasias" do pe­cado. Todas as perversões começam nos palácios e mansões. As favelas se limitam a importar esses "novos modelos".

O verso 8 diz: "Motejam e falam maliciosamen­te". A malícia no falar tão comum nas rodas dos arrogantes e escarnecedores também marca o cará­ter deles. Há sempre um toque de maldade no que dizem e a dubiedade faz parte do seu linguajar. A palavra motejar significa escarnecer, criticar, censu­rar e lançar em rosto. Pois bem, essa também, muitas vezes é uma característica de um homem sem abso­lutos que se torna "bem-sucedido".

Tais homens ainda se alegram e se distraem com a maneira rude e opressora como tratam os outros. "Da opressão falam com altivez" (v.8).

A essa altura da descrição do empresário sem cri­térios morais, ou do comerciante ambicioso, ou do "gatão" filhinho de papai, sua mente já deve ter sintonizado muitas imagens perfeitamente compa­tíveis com a descrição dos caracteres acima. E o surpreendente é percebermos que, em muitas oca­siões, já nos vimos invejando a posição dessas pes­soas. Ao falar em inveja, acho justo esclarecer o berço no qual ela nasce: a inveja é sempre uma ma­nifestação de admiração que se dissimulou. Se ela existe no coração do homem, antes de ter-se dege­nerado no sentimento mesquinho que a caracteri­za, houve uma admiração que ameaçou sua segu­rança e, daí, surgiu a inveja.

Mas a irreverência também faz parte do caráter deles. O verso 9 diz: "Contra os céus desandam a boca". Quando vejo as brincadeiras e piadas que alguns comediantes ricos e artistas famosos fazem com o nome de Deus, só posso pensar que eles se contam entre esses aos quais Asafe se referiu e dos quais invejou a prosperidade.

E, por fim, descubro ainda neste salmo uma re­ferência ao gosto pela difamação. "A sua língua percorre a terra" (v.9b). Eles assentam-se para falar dos seus casos amorosos ou das situações de humi­lhação e vexame na qual deixaram a mulher do pró­ximo. Em certas rodadas de cerveja, mais vitoriosos dos que os bem-sucedidos nos negócios são os con­quistadores de secretárias de empresas e agências de publicidade, por exemplo.

Em razão de todo este luxo e prosperidade, o povo simples das ruas deduz que Deus não está preocupado com as particularidades da vida moral dos homens, já que permite o sucesso dos arrogan­tes. O nome filosófico que se dá a este tipo de ra­ciocínio é deísmo. "Por isso o seu povo se volta para eles, e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos. E diz: Como sabe Deus? Acaso há conheci­mento no Altíssimo?" (v. 10-11).

Asafe declara que a filosofia dos ímpios estava sendo absorvida como um copo d'água por um ho­mem sedento. Aliás, é isso que diz Jó 15:16: "O homem ... bebe a iniqüidade como água".

Ao acreditar, por um momento, que Deus não se preocupa com a vida moral dos homens, Asafe lamentou o tempo que tinha perdido, pois sua vida tinha sido pura, digna e honesta até aquele dia. Pensou que todo o "esforço" tinha sido em vão. Observemos o verso 13: "Com efeito, inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocên­cia."

Sua luta em conservar puro o coração implicava em não pensar no pecado que o atraia, em evitar olhar com cobiça para objetos sexuais cobiçáveis e fazer tudo para não sentir prazer e gosto pela idéia do pecado. Infelizmente, pensava Asafe, tudo tinha sido inútil, pois Deus não estava preocupado com esse tipo de abstenção, já que aqueles que praticam o mal não são impedidos por Deus de prosperar.

As boas ações de Asafe, sempre que ele "lavara as mãos na inocência", também não se revestiam de nenhum significado, do ponto de vista de Deus, de acordo com a "teologia" que os fatos demonstra­vam ao desolado salmista. Suas tentativas para ser justo, imparcial e criterioso perderam toda razão de ser, pois Deus não estaria atento a essas minúcias comportamentais dos homens. E, no verso 14, o salmista dá aparentes justificativas para suas con­clusões até àquele momento: "Pois de contínuo sou afligido e cada manhã castigado."

Faltava à mente do salmista a teologia do sofri­mento diante da qual o Novo Testamento nos co­loca em muitos textos. Vejamos um exemplo disso em II Coríntios 4:8,9, 10 e 16 a 18.



"Em tudo somos atribulados, porém, não angus­tiados; perplexos, porém não desanimados; perse­guidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo.

Por isso não desanimamos: pelo contrário, mes­mo que o nosso homem exterior se corrompa, con­tudo o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas cousas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais e as que se não vêem são eternas."

Asafe não conhecia Romanos 8:18, texto que também nos traz alentadora promessa: "Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a gló­ria por vir a ser revelada em nós".

Tiago também nos ensina uma sucessão maravi­lhosa de virtudes que o sofrimento produz:

(Tiago 1:2 a 4) "Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes."

Finalmente acho bom darmos a palavra ao após­tolo Pedro para que nos diga algo sobre o assunto:

"Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão ou malfeitor, ou como quem se introme­te em negócio de outrem; mas, se sofrer como cris­tão, não se envergonhem disso, antes glorifique a Deus com esse nome." (I Pedro 4:15,16).

Essa teologia, no entanto, não estava muito nítida na mente do salmista. Na realidade são pouquís­simas as pessoas que pensam assim. Especialmente neste tempo de tanta propaganda de uma espécie de "hedonismo evangélico" com toda a massificante literatura do "cristianismo da prosperidade", em cujo ensino não há lugar para sofrimento e para a pobreza material, conforme Paulo nos ensina ser possível na vida cristã:

"De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem cousa algu­ma podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmo se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão." (I Tm 6:6, 11).

Além da ausência da teologia do sofrimento, Asafe também não estava ciente da bênção que a disciplina de Deus produz no homem quando o "castiga". Hebreus 12:11 diz:

"Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, pro­duz fruto pacífico aos que têm sido por ela exerci­tados, frutos de justiça."

A despeito de todas as suas dúvidas e conflitos, Asafe permaneceu calado. Não tinha ninguém com quem desabafar suas angústias e perplexidades. Re­ceava ser julgado como cético e apóstata e tenta es­candalizar os mais simples e ingênuos irmãos da congregação que nunca tinham tido aquele tipo de questionamento: "Se eu pensava em falar tais pala­vras, já aí teria traído a geração dos teus filhos" (v. 15-16).

Há muita gente vivendo o drama de Asafe. Nos­sas igrejas estão cheias de pessoas conflitadas e, lite­ralmente, suando frio as suas dúvidas teológicas. Não são poucos os que temem trair o povo que acha que vale a pena viver da maneira pura e justa dizendo-lhe que Deus não se preocupa com o com­portamento moral dos homens. Basicamente, todos os teologicamente liberais que não se manifestam publicamente vivem o medo de Asafe, o temor de trair o povo de Deus, por isso é que continuam ca­lados sobre o seu liberalismo filosófico baseado na inocuidade de atos morais como, por exemplo, a castidade.

Como esses, pode ser que alguém que esteja len­do este opúsculo se encontre na mesma situação: não acredita que Deus dê atenção a coisas como pureza, moral, etc..., entretanto, mantém-se calado para não escandalizar ninguém ou apenas pela ques­tão meramente romântica de viver no sério padrão que norteou durante muito tempo a sociedade.

Asafe estava preso à fé por "um fio". Todavia, não deixou de freqüentar o templo. E foi numa das suas idas ao santuário de Deus que o seu ponto de vista sobre a prosperidade dos maus mudou completamente. Observe atentamente os versos 16 e 17: "Em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim: até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles."

Realmente, há certos questionamentos na vida que são imensamente maiores do que a capacidade humana de carregá-los durante toda a existência, e muitos são completamente esmagados pelo conflito existencial que se trava em suas almas. Pensar nas questões da existência é "tarefa pesada" para um homem em dúvidas.

Houve, porém, um dia quando a carga filosófica de Asafe foi retirada. Naquela manhã, ao se dirigir para o Templo, não poderia imaginar que Deus o visitaria dando-lhe um profundo espírito de discer­nimento. A palavra mais significativa do verso 17 é "atinei". Está ligada à percepção, à capacidade de vislumbre da existência e de suas verdadeiras leis e caminhos.

Vejamos o que Asafe discerniu quando foi medi­tar no Templo:

Primeiramente entendeu que Deus é soberano, e que coloca soberbos no caminho da queda e da des­truição repentinas: "Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente ani­quilados de terror!" (v. 18-19). A vereda de um ho­mem sem Deus é lodocenta e escorregadia. Seus negócios, fama e glória estão construídos sobre bases "lisas". Seus pés podem desusar a qualquer momento.

Ah! se pudéssemos participar dos últimos mo­mentos de uma pessoa que viveu longe de Deus e que "usufruiu" dos prazeres e das facilidades do pecado durante toda a sua vida! A morte lhes vem como um laço. Podemos mesmo chegar em casa e avisar: "Eu não estou para ninguém. Nem para Deus". E morrer em seguida. Repentinamente. É drástico imaginar, mas pense no fim dessa pessoa. A morte chegou de súbito. Ela sente que está mor­rendo... escorregando da estrada da vida para o desfiladeiro da morte. É o fim. Resta-lhe somente o terror.

Em segundo lugar, Asafe captou a idéia de que a vida do soberbo é tão desprezível e irreal diante de Deus quanto um sonho para quem acaba de acor­dar e diz: "Foi somente um sonho". "Como ao sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, ao des­pertar, desprezarás a imagem deles" (v. 20).

Eu mesmo, quando encontrei Jesus como Salva­dor e Senhor, tive um tempo de intensa euforia que foi seguido de um período de profunda reflexão sobre o meu novo estilo de vida. Naqueles dias, ocorreu-me o seguinte: "Por que devo viver uma vi­da de abstenção dos prazeres? Por que devo desviar os olhos da mulher seminua que passa diante de mim? Por que razão não posso estimular nenhum dos olhares lascivos que se dirigem a mim? Por que devo contentar-me no tempo com a idéia de uma recompensa na eternidade? Que tipo de recompensa pode ser interessante num mundo onde não há ninguém para aplaudir ou sentir inveja? Qual a vantagem em se vencer uma corrida onde não há nenhum sentimento mundano de "sucesso" na che­gada?

Diante desta reflexão, pareceu-me, por um mo­mento, que a vida eterna só era eterna na duração, e que a vida terrena, conquanto fosse passageira, era eternamente intensa em sentimentos e realiza­ções. Confesso-lhes que esse raciocínio, mais do que qualquer outro, foi o meu mais forte adversá­rio nos primeiros seis meses de vida cristã. Até que, num certo dia, veio-me o discernimento do ponto de vista de Deus em relação à vida dos ho­mens que passam a existência distantes do Senhor. Somente muito tempo depois consegui correlacio­nar aquela percepção a um texto bíblico:

"Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente os males, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormento" (Lc 16:25).

Uma das mais inteligentes e fortes mentiras do diabo é fazer-nos pensar que não haverá nenhuma empolgação e alegria num mundo sem competições como o céu. E que, quando nos chamarem ao pó­dio para recebermos as honras de vencedores, ne­nhuma emoção sentiremos. O inimigo sempre tenciona fazer-nos crer que será o evento mais frio e pouco emocionante que se pode imaginar. Algo como promoção em mosteiro. E assim, consegue nos estimular à intensidade de uma conquista tem­poral, ainda que, do ponto de vista de Deus, tal "realidade" não passe de um sonho; algo que de­pois de ser vivido por nós será lembrado por Deus como uma "imagem de ser desprezada". Como a memória de seres e entidades que não existem no Seu verdadeiro mundo.

Asafe entendeu ainda que as conclusões a que chegou sobre a prosperidade dos maus não passa­vam de raciocínios resultantes de uma atitude de amargura, pois o azedume espiritual embota os sentidos e a percepção da alma: "Quando o cora­ção se me amargou e as entranhas se me comove­ram eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença" (v. 21-22).

Há três palavras nesses versículos que bem expli­cam a confusão de Asafe: embrutecido, ignorante e irracional.

Quando o homem fica amargurado de inveja, seu espírito perde a sensibilidade e, por isso, pode con­duzi-lo a conclusões falsas. Por outro lado, a igno­rância é a total ausência de conhecimento do cami­nho e da vontade de Deus. A amargura promovida pela inveja pode apagar todos os princípios de sabe­doria e de discernimento amealhados durante anos. Assim, é possível o homem se tornar ignorante da vontade de Deus. E, finalmente, a palavra irracional que, no hebraico é behemoth, equivale a ficar "sem comunhão com Deus como um animal".

São trágicas as conseqüências imediatas de se sentir inveja dos maus mas, graças a Deus, Asafe discerniu isso a tempo e entendeu que a maior in­tervenção de Deus em sua vida esteve no fato de que, apesar de todas as suas dúvidas e conflitos, o Senhor o segurou no caminho dos justos: "Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita" (v.23).

Na realidade, nenhuma intervenção de Deus po­de ser mais forte e significativa do que manter no caminho um crente divergente, duvidoso e revol­tado. É sutilmente majestosa a ação de Deus que faz permanecer na fé um homem totalmente em dúvida sobre a verdade de seus pressupostos.

Asafe compreendeu também que a verdadeira riqueza e prosperidade não é a dos soberbos, mas daqueles que têm a Deus como sua herança: "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a mi­nha carne e o meu coração desfalecem, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (v. 25-26). Estes versos nos apresentam três maravilhosas perspectivas através das quais Deus deve ser visto. Uma delas é que "Deus é úni­co no céu" (v. 25). Só os que podem concentrar toda a fé no Senhor é que são verdadeiramente feli­zes. A vida eterna consiste nisso: "em conhecer ao Pai como o único Deus e a Jesus Cristo como seu enviado" (João 17:3). A ênfase deste texto recai sobre a palavra "conhecer" que, no original, equivale a "conhecimento profundo ou experimental". Trata-se não apenas de um monoteísmo teórico mas de uma profunda experiência com o Único do céu.

A segunda perspectiva que o verso 25 nos indica é a seguinte: Deus deve ser o nosso maior prazer na vida. Ele é Aquele em quem eu devo ter minha mais intensa satisfação. Quem tem este sentimento em relação a Deus não olhará para os bens mate­riais como a recompensa do viver. E, por fim, o verso 26 declara que Deus é a nossa herança perpé­tua. Quem tomou posse de Deus como sua riqueza é que é o homem verdadeiramente próspero na vida.

Finalmente, foi meditando no Templo que Asafe entendeu que a infidelidade provoca afastamento de Deus e sofrerá a penalidade da destruição eter­na: "Os que se afastam de ti, eis que perecem: tu destrói todos os que são infiéis para contigo" (v. 27). Bom é que todos saibamos que Deus é paciente e misericordioso com todos os que estão na dúvida, mas que não justificará a infidelidade da­queles que, tendo estado no conflito, optaram pelo caminho dos maus e soberanos.

Diante de tudo isso, Asafe resolveu assumir posi­ções bem definidas. A primeira delas foi a de estar junto de Deus com prosperidade ou não: "Quanto ao mais, bom é estar junto a Deus" (v. 28a). E; a se­gunda, a de refugiar-se em Deus sempre que fosse assolado por qualquer dúvida: "No Senhor Deus ponho o meu refúgio" (v. 28b).

A grande finalidade da pureza e da santidade dos crentes é não nos deixarmos levar pelo pecado e pelo espírito competitivo que os soberbos e maus, às vezes, infundem em nós, e é sermos para o lou­vor da glória de Deus, "proclamando todos os seus feitos" (v.28c).

Consideremos que o maior "feito de Deus" é manter-nos de pé e salvos. Na realidade, nossa sal­vação é uma das coisas "impossíveis para os ho­mens e possíveis para Deus". (Mc 10:23 a 31). Tre­mendamente mais significativo do que uma ação de juízo de Deus esmagando os maus é aquela que me mantém de pé.

Sim, eu me refugiarei em Deus, para que eu mes­mo seja a mais veemente pregação de que ele é real e intervém na vida dos homens. Apesar de mim, Deus me tem feito permanecer em pé, sem deslizes ou quedas. Glória ao seu nome.

Caso você tenha lido esse opúsculo tendo na alma a dor e angústia de Asafe, abra o coração e a mente para as singelas verdades por ele discernidas. Se você fizer isso, certamente o Espírito Santo lhe trará sabedoria e discernimento para compreender qual é o ponto de vista de Deus sobre questões se­melhantes as de Asafe e que estão perturbando a sua vida.

Para isso, ouça a voz de Jesus quando diz:

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e ferrugem corroem e onde la­drões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros, tesouros no céu, onde a traça nem ferru­gem corroem, e onde ladrões não escavam e nem roubam; porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer e beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que as vestes?

Portanto, não vos inquieteis dizendo: que come­remos? que beberemos? ou: com que nos vestire­mos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuida­dos; basta ao dia o seu próprio mal."

(Mt 6:19-21,24,25,31-34).

Se você é um "cristão bem sucedido", saiba o que a Palavra de Deus diz sobre a sua prosperidade material:

"Exorto aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem as suas espe­ranças na instabilidade da riqueza, mas em Deus que em tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento, que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir, que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida." (I Timóteo 6:17 a 19).

Concluindo digo aos "Asafes contemporâneos" o seguinte: a grande manifestação de Deus no tem­po presente não é enriquecer o crente ou empobre­cer o descrente, mas é conservar no caminho que conduz ao verdadeiro e incorruptível tesouro pes­soas tão frágeis como eu e você.

Que Deus nos ajude a não ambicionarmos a prosperidade dos maus, substituindo tal perspectiva pelo saudável desejo de sermos fiéis a Deus no tem­po presente a fim de recebermos no céu a coroa da vida. Deus o abençoe!

Rev. Caio Fábio D'Araújo Filho