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sábado, 5 de março de 2016

IGREJA, A CASA DE DEUS

Um dia o rei Davi desejou construir uma casa para Deus. Sentia-se incomodado porque tinha a sua própria casa feita de cedros e a arca de Deus estava em uma tenda (2Sm 7.2). Falou ao profeta Natã do  seu desejo de construir uma casa para Deus e recebeu como resposta um incentivo para que fizesse tudo o que estava em seu coração porque, disse Natã, “o Senhor é contigo.”
Mas, não era isto que estava no coração de Deus e mandou mensagem a Davi dizendo que nunca requereu a construção de uma casa para Ele e que nunca havia deixado de estar com o seu povo. Anunciou que o filho de Davi lhe construiria uma casa. Davi ofertou o material para a construção e Salomão, realmente, construiu o templo para Deus.
Durante o período do Antigo Testamento a casa de Deus foi o templo de Jerusalém. Naquele lugar eram prestados os cultos e, até determinado tempo, era onde Deus se manifestava durante o culto sacrificial.
O Senhor Jesus veio ao mundo, estabeleceu o Novo Testamento, abriu caminho direto para a presença de Deus colocando-se como mediador, único sacerdote e o templo, até certo tempo ainda utilizado pelos judeus, inclusive convertidos a Cristo, foi completamente destruído pelos romanos. Aparentemente Deus ficou sem casa e, de fato, no cristianismo, o templo único, como lugar de adoração, deixou de existir. Jesus estabeleceu a sua igreja inicialmente em Jerusalém que, em pouco tempo, foi se espalhando pela face da terra. Cristãos passaram a se reunir como igrejas de Cristo em diversos lugares. No próprio templo de Jerusalém antes de ser destruído, em residências particulares, em escolas, em lugares ao ar livre e, até mesmo, em catacumbas. Aos poucos, em determinados lugares onde igrejas permaneciam se reunindo, foram sendo construídos lugares especiais, separados, para as reuniões das igrejas que, sob a influência do catolicismo (um sincretismo de romanismo, judaísmo e cristianismo) passou-se a denominar esses lugares especiais de templos.
Surgiu, então, a ideia de que os edifícios eram “casas de Deus”. No entanto, Deus continuou não habitando em lugares feitos por mãos de homens, mas habitando nos crentes em Cristo através da habitação do seu Santo Espírito.
Escrevendo a sua primeira carta a Timóteo o apóstolo Paulo diz que a igreja é a casa de Deus (1Tm 3:14) e podemos, assim, compreender que Deus realmente habita entre os crentes em Cristo, nas suas próprias igrejas. Não nos templos, nos edifícios construídos por mãos de homens, mas nas congregações dos crentes em Cristo Jesus.

Sendo assim, precisamos valorizar as igrejas de Cristo, precisamos reverenciar a presença de Deus em suas igrejas, precisamos desenvolver a fidelidade a Deus e, consequentemente, a seu Filho Jesus Cristo. Precisamos reconhecer que somos coluna e suporte da verdade de Deus e agir como tais. Precisamos lutar pela manutenção das características da casa de Deus nas suas igrejas.
 

OS DONS ESPIRITUAIS

 
1 Coríntios 12:1-11
O apóstolo Paulo já havia discorrido a respeito de problemas concernentes aos sentimentos e ao corpo, a atitudes manifestadas em atos e realizações físicas. Agora precisava falar a respeito de graves problemas no âmbito espiritual e ele inicia dizendo literalmente o seguinte: “A respeito do que é espiritual...”, ou “A respeito da espiritualidade...”; ou “A respeito do que concerne ao espírito...” A expressão “dons” é enxerto de tradutores e não existe na sua frase inicial. Ele estava preocupado com comportamentos e pensamentos que giravam em torno do que é imaterial, do que envolve tanto o espírito do ser humano, quanto o Espírito de Deus. E naquela igreja havia muita confusão a respeito, pelo fato de a espiritualidade deles ter, ainda, como padrão, a sua antiga religiosidade gentílica (v. 2).
Agora, convertidos, novas criaturas em Cristo Jesus, precisavam conhecer o que é espiritual em conformidade com a realidade do Espírito Santo, sua natureza, propósitos e atos vindos realmente de Deus. E nós, também influenciados por ensinamentos e comportamentos humanos, oriundos de religiosidades pagãs ou de incredulidades quanto à Palavra de Deus escrita, precisamos conhecer a respeito do Espírito Santo e suas manifestações na igreja. Não podemos ser ignorantes como os da igreja de Corinto eram.
I. O ESPÍRITO SANTO LEVA À GLORIFICAÇÃO DE JESUS – v. 3
O conhecimento principal para a compreensão das manifestações do Espírito Santo é o de que Ele sempre leva o ser humano à glorificação da pessoa do Senhor Jesus (ver também João 16:14). Nunca leva à glorificação da própria pessoa, nem do próprio Espírito Santo, porém à pessoa do Salvador, do Senhor, do Filho de Deus.
Anátema significa algo ou alguém que é dedicado à destruição, ao sofrimento. Daí se dizer, também, que anátema significa maldito. Mesmo que seja em sentimento manifestado em palavras, dedicar algo ou alguém à destruição é manifestar desprezo. Então, dizer Jesus é anátema é manifestar desprezo por ele. Ao contrário, referir-se a Jesus como Senhor, é glorificá-lo, é exaltá-lo como Rei dos reis, Senhor dos senhores.
Para não sermos guiados por falsos ensinamentos precisamos, portanto, antes de tudo, observar se quem nos tenta ensinar, ou nos incitar, ou nos conduzir, despreza ou exalta a pessoa do Senhor Jesus. Se exaltar-se a si próprio, ou se exaltar a pessoa do Espírito Santo acima de Jesus, é falso profeta, falso mestre, falso pastor. Quanto a ensinamento, é falso, enganoso.
II. A DIVERSIDADE DOS DONS DO ESPÍRITO SANTO E A UNIDADE DE DEUS, JESUS CRISTO E ESPÍRITO SANTO – v. 4-11
Pelo contexto da carta percebemos que havia irmãos na igreja de Corinto que se exercitavam na prática de algumas manifestações espirituais apenas e, talvez, as que mais lhes eram convenientes para a aquisição e manutenção de posições de destaque na igreja. O destaque ia para o fenômeno da glossolalia (produção de ruídos estranhos, ininteligíveis com a boca) e para a adivinhação (que confundiam com a profecia). Mas o apóstolo Paulo, antes de discorrer profundamente a respeito desses fenômenos, se preocupa em ensinar que existem diversos outros dons do Espírito Santo, que visam a prestação de serviços ao Senhor Jesus e que todos são realizações dedicadas a Deus. Ou seja, os dons são diversos, provém do Espírito Santo conforme a vontade dEle porque distribui a cada um como quer (v. 11) e nunca são para o indivíduo, para seu benefício próprio (nem mesmo para a própria edificação) nem a distribuição e recebimento de dons é conforme a vontade de quem os busca.
Para compreendermos melhor a respeito dos dons do Espírito Santo precisamos analisar o seguinte:
1. O que é dom do Espírito Santo
A expressão grega utilizada Pelo apóstolo Paulo e traduzida por “dom” é “karismáton”, que tem como principal significado “favores não merecidos, porém gratuitamente concedidos.” Compreendemos, assim, que o apóstolo Paulo não está falando nada a respeito de recebimento do Espírito Santo, mas de capacitação concedida pelo Espírito Santo para o serviço cristão. A expressão é traduzida por dom porque não temos na língua portuguesa uma expressão que, por si só, consiga dar o mesmo sentido que a palavra grega. E, também, porque são capacitações que vêm aos crentes em Cristo como dádivas divinas, sem que o crente tenha que merecê-las.
2. Os dons são individuais. Os dons são manifestados e o apóstolo Paulo afirmou que a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil e, compreendemos, ao serviço cristão. Observe-se com atenção que manifestação é ação e que não há, portanto, dom sem manifestação. Isto seria inútil.
3. Quais capacitações foram referidas pelo apóstolo Paulo.  Os dons do Espírito Santo ensinados à igreja de Corinto foram os seguintes:
a) Palavra de sabedoria – Capacidade de se expressar com sabedoria, com prudência, com inteligência.
b) Palavra de conhecimento – Capacidade de transmitir o conhecimento verdadeiro, de ensinar o que é correto, de doutrinar.
c) Fé – convicção da verdade (pistis). Lembramos que o apóstolo Paulo está falando de manifestação de dons. Está, portanto, se referindo à fé verdadeira, com atos e atitudes que manifestam a convicção da verdade. Lembremo-nos de que os atos, as realizações (ergon) de fé são as manifestações de que a fé é real, verdadeiramente existente (Tiago 2:18).
d) Os meios de cura – A palavra utilizada é iama, que significa exatamente isso: “um meio de cura, remédio, medicamento”. O apóstolo Paulo não estava se referindo a curas milagrosas, porém aos meios de cura. Se quisesse se referir a cura teria utilizado a palavra iaomai, que é o verbo curar, sarar. Diferentemente do que muitos pensam e defendem hoje, o apóstolo Paulo estava dizendo que, na igreja, o Espírito Santo concedia a crentes meios, recursos, medicamentos, para curar.
e) Realizações de poder – A palavra que é traduzida por milagres é dunamis que significa literalmente poder, força, capacidade. A palavra que foi traduzida por operações é energema, que significa aquilo que foi realizado, resultado de uma operação. Por isso traduzimos por “realizações de poder”. Não é possibilidade de realizações, porém a realização concluída e de algo poderoso. Não significa necessariamente que sejam milagres, pois pode ser qualquer realização poderosa para o Senhor Jesus Cristo. Por exemplo, a realização, a conclusão da operação da evangelização levada a efeito pelo apóstolo Pedro no dia de Pentecostes, quando se converteram e foram agregadas à igreja quase três mil almas, foi uma concessão, uma dádiva do Espírito Santo. Isto significa que poderosas campanhas evangelísticas realizadas pelas igrejas e conduzidas por alguns, é uma dádiva do Espírito Santo.
f) Profecia – Confundido por muitos com adivinhações, inclusive de coisas particulares na vida de pessoas, significa, no entanto, conforme Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, “discurso que emana da inspiração divina e que declara os propósitos de Deus, seja pela reprovação ou admoestação do iníquo, ou para o conforto do aflito, ou para revelar coisas escondidas; esp. pelo prenunciar do eventos futuros na predição de eventos relacionados com o reino de Cristo e seu iminente triunfo, junto com as consolações e admoestações que pertence a ela...” É, portanto, o dom de anunciar, pregar, a Palavra de Deus. Uma pregação de acordo com a Palavra de Deus, com as Escrituras Sagradas, a proclamação do evangelho de Jesus Cristo como consolação e admoestação do juízo de Deus sobre a humanidade, é manifestação do dom de profecia.
g) Discernimento de espíritos – seja no sentido do ânimo ou essência do que move o ser humano (falso ou verdadeiro), seja no sentido de espiritos malignos que se disfarçam no seio da igreja, através de pessoas e seus atos.
h) Línguas de outros povos, raças, tribos ou nações – Ao contrário do que consta da maioria das nossas traduções, o apóstolo Paulo não se referiu nenhuma vez a linguas estranhas ou a variedades de línguas. Isso é interpretação pessoal de tradudores que mudaram o sentido, talvez desejando facilitar a compreensão e, ao contrário, dando origem à grande confusão doutrinária e comportamental que existe hoje no meio evangélico difundido pelos doutrinadores do pentecostalismo. No grego, no versículo 10, encontramos as expressões genos, que significa família, raça, tribo, nação; e glossa que tanto pode significar língua no sentido do órgão da fala, quanto língua, no sentido de idioma. A referência do apóstolo Paulo é específica à manifestação do dom de línguas de outras nações. Pessoas que conseguem aprender com facilidade línguas de outras nações e as utilizam no que é últil para o reino de Deus, são capacitadas pelo Espírito Santo.
i. Interpretação de línguas estrangeiras – Conforme significado da palavra hermenéia, do que foi dito de alguma maneira obscurecida a outras pessoas. É o dom de interpretar, esclarecer e anunciar de maneira perfeitamente compreensível. Não é um dom de interpretação de línguas estranhas, isso não existe na Bíbli, mas o dom de interpretação de línguas de outras nações.
Concluindo
 a) Dons são dádivas não merecidas, portanto não podem ser conquistados através de práticas religiosas; b) Dons são invisíveis, o que é visível são as manifestações dos dons; c) Dons de profecia, de cura, de línguas e de interpretação não são o que os pentecostais ensinam, porém o que está escrito no texto e foi explicado; os dons são uma realidade para o que for útil na igreja de Cristo e não para o benefício de quem os recebe.

A EXISTÊNCIA DE DEUS





 
Porquê a existência de Deus é essencial à teologia sistemática?

Se a Teologia é a ciência de Deus, a Sua existência é necessária para estudar detalhadamente. A veracidade do fato: “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Romanos 11:36) força o raciocínio de termos de estudarmos dEste Deus em qualquer ramo de doutrina Bíblica. A teologia começa com duas verdades assumidas: 1) que Deus existe, e 2) Este Deus Si revelou na Sua Palavra divina (Berkhof, p.19). Se Deus existe, o homem pode conhecer algo de si mesmo, pois Deus o criou; algo do mundo, pois Deus é a sua causa; algo sobre o universo, pois existe para a glória dEle. Se não tiver um Deus, nada pode ser compreendido satisfatoriamente, e tudo existe ou por sorte ou acaso, em uma densa confusão de trevas (Pendleton, p. 12). Devemos provar a existência de Deus? A Bíblia não procura de provar a Deus, pois assume e declara-O. Mesmo que podemos provar essa existência por varias verdades, é melhor crê pela fé o que a Bíblia assume e declara. Como podemos provar a existência de Deus? Mesmo que podemos aprender, por vários métodos, que Deus existe, nunca pode a mente finita compreender O Infinito: “Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? E mais profunda do que o inferno, que poderás tu saber? Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar” (Jó 11:7-9). Entramos nesse assunto com reverencia e a certeza que não podemos entender tudo sobre o assunto. Na filosofia, é admitido que existam ‘verdades primárias’ das quais seguem todo raciocínio. Entre essas ‘verdades primárias’ é a crença de ‘causa e efeito’. A existência de Deus, então é provada pelo bom senso da mente não preconceituosa. A crença da existência de Deus é inato à mente do homem pois enquanto a consciência do homem é desenvolvida com o avanço de idade, ela é iluminada para naturalmente reconhecer este Deus vivo e verdadeiro pelas obras de criação e a providencia divina (Atos 14:16,17; 17:24-28; Romanos 1:19,20). Na realidade, não são essas observações que ensinam a existência de Deus à consciência do homem, mas as observações estimulam e confirmam a verdade inata que está naturalmente na mente. Por isso é dito “as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem... pelas coisas que estão criadas...” (Romanos 1:20, Shedd, Vol. III, páginas 198-199). “As coisas criadas” estimulam aquilo que é inato na mente do homem: a existência de um Justo, Santo, e Onipotente Deus (veja: João 1:4,5. Versículo 4 reconheça a idéia inata de Deus no homem enquanto versículo 5 manifesta a culpa que o homem tem por não submeter-se a este Deus - Shedd). “Por isso as nações do mundo sempre tenham mais uma tendência à idolatria do que ao ateísmo, mais à multiplicidade de deuses do que à negação da deidade” (citação de Charnocke por Shedd). A inferência racional que o homens fazem, “desde a criação do mundo”, que há um Deus revela que a existência de Deus é inato ao homem. Hebreus 3:4, “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” nos apresenta o argumento Cosmológico. O efeito necessita uma Causa. A Causa deve ser antes do efeito (João 1:1). Se no principio criou Deus os céus e a terra, Ele é antes da criação, portanto antes do tempo, ou existente e eterno. Salmos 94:9, “Aquele que fez o ouvido não ouvirá? E o que formou o olho, não verá?” O argumento Teleológico diz o designo requer um Engenheiro, a lei sugere um Legislador, a ordem aponta ao Organizador, um universo racional implica a existência de uma causa primária que é racional, a criatura necessita de um Criador – que é Deus. Não inclui somente o mundo de matéria (ouvido e olho) mas também o intelectual, Salmos 95:10, “E o que ensina ao homem o conhecimento, não saberá?” Romanos 2:14,15, “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;” e a base do Argumento Moral. A consciência do homem testifica à necessidade da obediência e a retidão da condenação diante da desobediência. Isso deduz que existe um Juiz justo – que é Deus. A historia da humanidade nos diz que as nações pagãs, na maioria, crêem num ser Superior. Abimeleque, um rei de Palestina, reconheceu Jeová (Gênesis 20:3-8), Faraó reconheceu o espírito de Deus em José (Gênesis 41:38), Jetro, o sogro de Moisés, deu conselhos de um homem temente a Deus (Êxodo 18:9-12, 19-23), Balaão, ainda na Mesopotâmia, proclama a verdade de um Deus soberano (Números 24:16). Essas atualidades estabelecem o Argumento Histórico. A Existência de Deus As causas da existência de Deus existem em Si mesmo. “A existência de Deus tem sido referida como sendo o mistério maior, mas nos fornece uma chave para abrir milhares de outros mistérios” (Pendleton, p. 12). A Sua existência é assumida como natural pela lógica racional e pela Bíblia. A lógica diz: a existência de Deus é antes das doutrinas que tratam de Deus. A Bíblia diz: Gênesis 1:1, “No principio Deus criou os céus e a terra”.


Autor: Pr Calvin Gardner 

Fonte: www.obreiroaprovado.com


O Deus da Revelação como assunto principal da Teologia

1. A Teologia, ciência de Deus e da salvação humana.
2. O questionamento moderno de Deus como objeto principal da ciência teológica.
3. A reflexão sobre Deus e sua repercussão teológica.
4. A inacessibilidade e afastamento de Deus como objeto do pensamento moderno.
5. A centralidade do mistério de Deus para a Teologia cristã.
6. Extensão do objeto da Teologia.

A Teologia, ciência de Deus e da salvação humana.
O interesse principal da Teologia é Deus e sua atividade salvadora em Cristo. É pois uma ciência teocêntrica. Todas suas afirmações são sobre Deus e a partir das afirmações sobre o ser de Deus procura entender suas ações e pretende dar sentido à existência do homem e do mundo.
A Teologia trata de Deus enquanto Deus, isto é, trata do Deus vivo da Revelação, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e de Jacó, o Deus Uno e Trino que se revelou na história da salvação.
“O Deus dos filósofos não é o Deus vivo e pessoal que a Bíblia nos testemunha, mas um fundamento do mundo, um Incondicionado e um Absoluto que não pode ser denominado com um Nome pessoa, mas mediante conceitos abstratos. Ao Deus dos filósofos não se pode rezar. Corresponde, sem dúvida, ao pensamento filosófico uma importante função. Proporciona acessos para a compreensão da fé e mostra que a fé em Deus, sobre passando em muito o puro pensar, não é irracional[1]“.
“A Deus ninguém o viu jamais: o Filho único, que está no seio do Pai, Ele nos revelou” (Jo. 1,18). A Teologia depende pois da Revelação dada por Cristo, o Filho Unigênito de Deus.
A Teologia estuda o ser de Deus na medida em que pode ser alcançado. Não esquece que Deus é um profundo mistério, que não pode ser conhecido como os demais objetos de conhecimento. A Teologia trata de Deus tanto em si mesmo, quer dizer, enquanto a sua essência, seus atributos e Pessoas, quanto como princípio e fim de todas as coisas. Diz um adágio antigo sobre a Teologia: “Theologia Deum docet, a Deo docetur, ad Deum ducit”.
O questionamento moderno de Deus como objeto principal da ciência teológica.
A afirmação de que Deus é o assunto central da Teologia foi posta em debate nos últimos anos. A dúvida sobre isso tem dois motivos: a) a perda do sentido cultural e filosófico do termo “Deus”; b) alguns pressupostos epistemológicos modernos, que declaram a Deus como um ser incognoscível e afastado de nós.
Como base dessa segunda postura temos 1) motivos religiosos: Deus seria totalmente transcendente, inacessível (crítica protestante da objetividade de Deus); 2) motivos filosóficos: Deus seria uma construção do pensamento humano, uma idéia (em sentido kantiano, metafisicamente inalcançável); 3) motivos metodológicos: alguns autores afirmam antes de tudo o homem e a sua salvação como aspectos centrais da teologia, colocando a pergunta sobre Deus em segundo lugar.
A reflexão sobre Deus e sua repercussão teológica.
A partir do século XVII a filosofia racionalista vai empobrecendo a concepção cristã sobre Deus. Não é possível aqui descrever todo esse processo, mas daremos os conteúdos fundamentais desse processo.
O processo começou quando a filosofia começou a tratar da mera “idéia de Deus” desligada das afirmações cristãs sobre Deus. O ponto final desse processo é a redução de Deus a uma mera categoria filosófica, cujo conteúdo é afirmado segundo as ideologias do momento. Esse processo termina assim no ateísmo, isto é a negação racional e absoluta da existência de Deus.
Nesse processo Deus foi confundido com o mundo, com o homem, até que se tornou uma idéia sem conteúdo da mente humana. Essas afirmações são sustentadas por filosofias deficientes, parciais. Por exemplo: para Descartes Deus era simplesmente a causa última que garante a ordem física do mundo; para Espinoza havia uma só substância no mundo, Deus ou o mundo; Kant entendia a Deus como uma idéia que serve de pressuposto à ordem moral e à liberdade humana. Hegel falará de um movimento histórico-dialético, no que o Absoluto se faz a si mesmo por infinitos elementos; Nietzsche proclamou a “morte de Deus” e a chegada do “super-homem”, isto é, o homem contemporâneo descartou o conceito de Deus e a partir de agora, o homem movido pela “vontade de poder” vai mover o mundo. Esse autor foi capaz de ver as conseqüências trágicas dessa “morte de Deus” para a humanidade: “que fizemos ao libertar esta terra do seu sol? Para onde ela se move? Para onde nos movemos, longe de todos os sóis? Não estamos caindo? Não vamos dando tombos para trás, para o lado, para adiante, para todos os lados? Há ainda um acima e um abaixo? Não vagamos através dum infinito nada? Não sentimos o espaço vazio? Não faz mais frio? Não anoitece cada vês mais?[2]
A inacessibilidade e afastamento de Deus como objeto do pensamento moderno.
a) A redução religiosa: tem sua origem em Lutero, que afirmou com toda a força a majestade de Deus e a correlativa insignificância e absoluta carência espiritual do homem. “Deus decidiu ser incognoscível e incompreensível ao margem de Jesus Cristo”, afirmou Lutero. Os homens ignorariam a Deus fora da Revelação e tendem a converte-lo em um ídolo. Não há possibilidade de conhecer a Deus pelas forças humanas somente. A revelação de Deus também não tem caráter especulativo para Lutero: “aquilo ao que se adere e se abandona o teu coração é propriamente teu deus[3]“. Outro autor protestante (calvinista) que afirma de forma absoluta a transcendência divina e Karl Barth (1886-1968). Esse autor tem uma obra monumental. Para ele, Deus é o “Absolutamente Outro”. O Deus da fé cristã é um Deus que fala e a única resposta adequada por parte do homem é a obediência. Não haveria para ele nenhuma caminho que vai do homem a Deus, só há a via recorrida por Deus que fala ao homem. O homem não pode conhecer nada de Deus por si mesmo, exceto o que ele mesmo revelou.
b) A redução filosófica: o filósofo moderno Immanuel Kant (1724-1804) apresentou de forma mais sistemática a incognoscibilidade metafísica de Deus para a razão humana. Sua filosofia exerceu enorme influência na filosofia e teologia contemporâneas. Na Critica da Razão Pura ele concluiu que o único conhecimento válido resulta da união de sensibilidade e entendimento ordenados pela atividade sintética a priori do entendimento. Deus para ele não pode ser conhecido pela razão, não pode ser objeto de estudo científico, é uma mera idéia da razão, cuja existência não resulta racionalmente demonstrável. Kant postula Deus como necessidade para a razão prática, como garantia da ordem moral. O sistema kantiano é a base da chamada “perda do objeto teológico”.
c) A redução antropológica: está presente na obra do filósofo Schleiermacher e também tem muitos efeitos na filosofia e teologia contemporâneas. O filósofo Martin Heidegger (1889-1976) reelaborou essa filosofia e trouxe graves conseqüências para a teologia. Segundo eles, a pergunta pelo homem é entendida como o único modo possível de apresentar a pergunta de Deus.
O teólogo que assumiu essa postura e a apresentou teologicamente é o luterano Rudolf Bultmann (1889-1976). Esse autor nos apresentou uma radical interiorização da mensagem evangélica, eliminando do crisitianismo todo o valor do tempo, do mundo, da história. A Revelação não é concebida como algo exterior à consciência do homem, mas seria um processo subjetivo de auto-compreensão e, mediante o kerygma, se percebe como salvo pela fé em Jesus. A cruz e a ressurreição deixam de ser eventos históricos e passam a ser algo que Deus causa na existência do crente. O centro dessa teologia é pois uma “tradução“, que elimina todo o conteúdo transcendente de fé cristã para converte-las em elementos imanentes (para fazer o cristianismo algo científico). Na teologia bultmaniana o objeto humano absorve o elemento divino da teologia. Dessa forma, em algumas áreas da teologia contemporânea se deixa de estudar a Deus e se passa a investigar se existe no homem as condições epistemológicas para conhecer a Deus e para entender o que nos diz a Bíblia. A teologia deixa assim de ter a Deus como objeto e passa a não ir mais além do homem.
Outro teólogo que quis levar esse projeto adiante foi o católico Karl Rahner (1904-1984): esse autor se esforçou para “mostrar que a teologia dogmática hoje deve ser uma antropologia teológica, e que o ‘giro antropológico’ é necessário e frutífero”. Ele queria uma reflexão teológica que resultasse significativa para o homem moderno, isto é, a teologia deve partir da antropologia transcendental kantiana.
A centralidade do mistério de Deus para a Teologia cristã:
A Teologia da Igreja parte da consciência de que a experiência bíblica sobre o Deus vivo dispõe de uma linguagem suficientemente clara e acessível à razão humana. Está consciente que Deus é um mistério, que nosso conhecimento é parcial, mas é verdadeiro conhecimento de Deus. A Teologia cristã não admite que a noção de Deus pode ser absorvida nos nossos discursos humanos. “Deus semper maior” afirmava Santo Agostinho, numa expressão clássica e admitida por todos os teólogos de bom senso. A verdadeira Teologia se esforça sempre por conhecer a Deus e não um ídolo.
Extensão do objeto da Teologia.
Já dizia Santo Tomás na Suma Teológica:
“Deus é o objeto desta ciência, porque o objeto está para a ciência como para a potência ou hábito. Ora, propriamente, é considerado objeto de potência ou hábito aquilo sob cujo aspecto se lhes refere qualquer coisa. Donde, referindo-se à vista, enquanto coloridos, o homem e a pedra, é a cor o objeto próprio da vista. Ora, a sagrada doutrina tudo trata com referência a Deus, por tratar ou do mesmo Deus ou das coisas que lhe digam respeito, como princípio ou fim. Pelo que, é Deus, verdadeiramente, o objeto desta ciência – o que também se demonstra pelos princípios da dita ciência, ou artigos da fé, de que Deus é objeto. Ora, idêntico objeto têm os princípios e toda a ciência, por estar a última, total e virtualmente, contida nos princípios. – Certos, porém, atendendo às matérias tratadas e não ao ponto-de-vista, a esta ciência assinalaram outro objeto; como, a realidade e os símbolos, ou as obras da reparação; ou todo Cristo, isto é, a cabeça e os membros. E, com efeito, são consideradas nesta ciência todas essas matérias, se bem com relação a Deus”.


[1] Catecismo Alemão de Adultos, Madrid, 1989. [2] A Gaia Ciência II, 127.
[3] BSLK, 560.